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A devoção ao Cristo Sofredor

 

Fala-se com certa freqüência do destaque que os fiéis  se dão às devoções ligadas à Paixão de Cristo, as Via-Sacras, os Calvários, as procissões do encontro e do enterro, lamentando-se que outras devoções, que apresentam o Senhor vivo e ressuscitado, não tenham tanto destaque.
A esse fato são dadas, normalmente, explicações de cunho psicológico: o povo sofredor identifica-se mais com o Cristo padecente, com a Senhora das Dores, do que com o Cristo ressuscitado e vencedor. Pergunto-me se este tipo de resposta, mesmo tendo seu valor, não fica na superfície da questão. Parece-me necessário analisar teologicamente o fato e ouvir “o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2,7) através da experiência da fé e da piedade de uma Igreja tão expressiva como é a Igreja do Bom Jesus do Horto em Belo Horizonte. Com efeito, a devoção de uma comunidade de fiéis é também um modo pelo qual Deus quer falar a sua Igreja toda.

Deve-se notar que a devoção à Paixão de Cristo está solidamente apoiada na mais autêntica tradição latino-americana. 

Com efeito, como bem nota o teólogo Segundo Galilea, a espiritualidade latino-americana tem suas raízes nos santos espanhóis do séc. XVI (Sta. Teresa d’Ávila, S. João da Cruz e Sto. Inácio de Loyola) e no movimento espiritual iniciado por eles. Nesta espiritualidade tem grande destaque a devoção à santa humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo, que aparece com mais evidência nos momentos de maior fragilidade de Jesus, o presépio e o Calvário (aliás, pontos centrais também da espiritualidade franciscana).
Ora, tal devoção está em perfeita sintonia com as Sagradas Escrituras. Basta lembrarmos as palavras de Paulo: “os judeus pedem sinais, como os gregos buscam a sabedoria. Nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos (1Cor 1, 22-23) ...entre vós, não quis saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Cor 2, 2). Ainda, no Evangelho de João, é na cruz que Cristo aparece “elevado da terra”, atraindo todos a si (Jo 12, 32), na cruz ele é proclamado como rei (Jo 19,19). Mais ainda, o destaque dado à Paixão do Senhor pelos evangelistas é claramente percebido pelo número de capítulos que são dedicados à ela. Se outras passagens são descritas brevemente (inclusive a ressurreição!) muitas linhas são gastas descrevendo os sofrimentos do Senhor.

Por que realçar os sofrimentos e a morte do Senhor? Por que ficarmos lembrando de sua Paixão, se ele está vivo e vitorioso? Para trazer sempre presente ao nosso coração que fomos resgatados, como afirma Pedro, “não por coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, cordeiro sem defeito e sem mancha” (1Pd 1,18-19); para tomarmos consciência do quanto nossa redenção foi custosa ao Filho de Deus. É somente esta consciência de que o Filho de Deus “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20) que é capaz de suscitar nos corações o amor agradecido, que leva à autêntica vida cristã às vezes ao ponto da radicalidade do martírio. Quem não valoriza a paixão e a morte do Senhor é incapaz de compreender o núcleo do cristianismo, de compreender que o quanto Deus amou o mundo, “a tal ponto que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não morra, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16).
Aquele que adoramos como Deus é o mesmo que padeceu por nós. Como o centurião aos pés da cruz, somos convidados a olhar para a imagem de um homem torturado e reconhecer: “na verdade, esse homem era Filho de Deus” (Mc 15,39).

O afluxo de fiéis a Paróquia Senhor Bom Jesus do Horto atesta estar vivo e presente em nossas comunidades cristãs, a consciência da Paixão e dos sofrimentos do Senhor. Longe de cultuar o ídolo do sucesso e do poder, o povo cristão, iluminado por uma unção que vem do mesmo Cristo (cf. 1Jo 2, 20.27), reconhece seu Deus e Salvador, representado na imagem de um homem sofredor. De fato, são profundas as lições que a piedade popular tem a nos ensinar!

 

 

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