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1.
A projeção melancólica da tristeza
Na ampla literatura da religiosidade popular há muito material que
projeta a imagem de uma de vivência cristã triste.
1.1. A esfera de medo e pecado
Com abundância de material, Delumeau e Huizinga, historiadores da cultura
ocidental, mostraram que, no outono da Idade Média, formou-se uma grande
onda de medo, angústia, morte, pecado, pavor do inferno com demônios
monstruosos e horrores de tortura. A moldura social ficava expressa pela
reza comum: “da peste, fome e guerra livrai-nos, Senhor!” Neste clima,
a Reforma de Lutero, de Calvino e Contra-Reforma do Concílio de Trento
passaram para adiante pesadas discussões sobre a justificação, o
pecado, a confissão com seus atricionistas e contricionistas e longos
debates sobre o laxismo e o severo rigorismo incorporado no Jansenismo e
no neojansenismo de Port-Royal, que alcançou o Brasil no século XVIII.
Especialmente o campo da sexualidade foi cercado de pecados mortais, o que
inspirou à prof.a Ângela Mendes de Almeida o irônico título de “O
Gosto do pecado” a seu estudo sobre os manuais de confessores.
Enquanto os manualistas da língua latina mostraram ainda certa sobriedade
em suas posições negativas e rigoristas, os pregadores, os missionários
e as publicações populares capricharam mais no sensacionalismo,
descrevendo o horror da morte e a podridão dos cadáveres dos pecadores
falecidos, a severidade do Deus-juiz, o fogo e as torturas do inferno. Nos
confessionários, completar a lista dos pecados com perguntas sobre números,
espécie e circunstâncias parecia mais importante do que culpa responsável
e sinceridade de conversão. Vivendo o status de pobres dependentes e, nas
igrejas, de ouvintes passivos, muitos cristãos foram atacados por uma
verdadeira pecadofobia, pelo medo do inferno e da condenação eterna, sem
fim, em vivo contraste com o ambiente social de corrupção moral que
cunhou a famosa frase de que ao sul do Equador não há pecado (REB, 59
[1999] 515-529).
1.2. O culto do sofrimento
No simbolismo das igrejas tradicionais manifesta-se um traço da
religiosidade do povo que poderia chamar-se de “cristianismo triste”.
De herança lusa, as imagens de Cristo crucificado, do Bom Jesus e de
Nossa Senhora das Dores atraem a devoção do povo. Nas cruzes pregado, o
corpo ensangüentado com coroa de espinhos e o lado transpassado pela lança
do soldado - testemunho sempre presente do martírio de Jesus!
Curiosamente, o Bom Jesus é o Jesus morto, imagem usada na procissão do
enterro na Sexta-feira santa. Durante o ano todo esta imagem fica exposta,
bem visível, embaixo do altar. Mais duas imagens projetam a dor, o
sofrimento e a tristeza trágica de duas pessoas inocentes: a imagem do
Senhor dos passos, o Cristo curvado sob o peso da cruz, e de Nossa Senhora
das Dores, com sete espadas no coração. Em muitos lugares, altos
cruzeiros com os símbolos da paixão de Jesus, os pregos, a lança com
esponja, uma escada, e até o galo, símbolo da traição, lembram aos
transeuntes o que seus pecados fizeram com Jesus.
Esta esfera de tristeza que perpetua momentos passageiros e superados dos
dois personagens, Jesus e Maria, não é simples projeção da vida
sacrificada: pobreza, necessidades, doenças, sofrimentos, calamidades e
mortes que o povo conhece de perto todos os dias. Desde a Idade Média, o
clero estimulou o teatro nas igrejas ou na frente delas, para comunicar,
na concretude dos artistas, suas pregações catequéticas. Era o
complemento vivo da Bíblia dos pobres, expresso nos portais e vitrais
coloridos das catedrais.
Assim, esta paraliturgia popular, vivaz e em língua vernácula,
completava no cristianismo popular europeu a liturgia oficial sóbria e em
latim, e se constituía num meio de comunicação mais adequado da
mensagem teológica do clero. Evidentemente, as apresentações teatrais
encontravam material mais fácil na paixão e morte, experiências humanas
comuns, do que na ressurreição e glória de Jesus, graça divina da fé.
No entanto, mais do que as limitações da imaginação artística, a própria
mensagem dos padres missionários entrou, lembrando ao povo seus pecados e
sua necessidade de arrependimento e penitência, praticada de muitas
formas. A catequese pregada e apresentada tinha de conduzir o povo
submisso e arrependido a contar seus pecados ao padre. Esta expressão,
freqüente nos velhos catecismos, continua na boca do povo até hoje.
A contínua presença das imagens de Jesus em sua paixão e morte e de
Nossa Senhora em suas dores está intimamente ligada à consciência dos
cristãos de que a causa de tanto sofrimento está nos pecados que têm
cometido em sua vida. Através da pregação do clero, textos de novenas e
orações de livros devocionais, o senso de todos sermos pecadores é
fortificado pelo contraste com a inocência de Jesus e Maria que não têm
pecado. Embora “os” judeus fossem os executores, o cristão relaciona,
em particular, toda a carga do sofrimento dos dois e os seus próprios
sofrimentos aos próprios pecados e os interpreta como conseqüência de
sua própria iniqüidade. Até crianças aprenderam (ainda aprendem?) que
seus pecados pregam Jesus de novo na cruz e ferem com mais uma espada o
coração de sua Mãezinha no céu. Além da norma moral, é a acumulação
das dores e dos sofrimentos que indica o tamanho da miséria do pecador,
tendo o inferno como pano de fundo.
Para identificar o mundo como vale de lágrimas e antro de tentações,
entra também a avaliação negativa e pessimista do corpo e do sexo. De
longe veio uma ascese severa de cilício, sacrifício e autocastigo que
incluiu dura disciplina do corpo, destinado ao pó e perigoso. O corpo
humano era desprezado, oprimido e escondido. Um primeiro sinal são os
bancos das igrejas e capelas, que permitem apenas três atitudes:
ajoelhar, ficar de pé, sentar. Dos padres no altar e na rua somente se
viam a cabeça e as mãos; das irmãs de caridade, apenas uma parte do
rosto; suas mãos eram escondidas nas mangas largas do hábito. Na vida
cotidiana, os homens podiam tirar a camisa durante o trabalho no sol
quente. Mas as mulheres, símbolos clássicos de sedução e pecado, só
mostravam seu corpo pela face e pelas mãos; o resto era roupa comprida e
mangas compridas. Nas igrejas e na vida social, havia separação entre
homens e mulheres. Os casais ficavam separados nas cerimônias religiosas
e festas sociais.
Na arte cristã, imagens e gravuras de santas mulheres têm o corpo
totalmente coberto e um véu esconde os cabelos, enquanto a corporeidade
masculina se manifesta no corpo despido de Jesus na cruz, no torso de S.
Sebastião e, às vezes, de S. João Batista; Santo Onofre fica coberto
apenas pela barba e pelos cabelos até o chão. Na Idade Média, a imagem
de Nossa Senhora grávida era aceita e, abrindo uma portinha, o povo
devoto via o Menino Jesus sentado no ventre de sua mãe. Na visita de
Maria, Isabel está visivelmente esperando seu filho. E o público não se
escandaliza com o pintor que coloca ao lado do estábulo em que nasceu o
Menino Jesus um rapazinho fazendo xixi na neve, de frente para o público.
Atualmente, muita imagem de Maria não tem mais nem o seu Filho nos braços.
Em geral, os sinais da diferenciação sexual ficam ausentes na
iconografia, do século XIX para cá.
Não custa muita imaginação para ver na época atual de cultura do corpo
e de ostentação da nudez vestida uma reação dialética ao tempo mais
ou menos passado do corpo escondido. Sem tirar os bancos nas igrejas cristãs,
os movimentos carismáticos quebraram o monopólio dos gestos litúrgicos
estilizados e sóbrios. Mas a dança, praticada em outras religiões, fica
restrita, até agora, à coreografia de uma ou outra grande celebração.
O culto católico se restringe a palavras faladas e cantadas e a gestos
mui modestos em que o corpo fica parado; talvez com exceção da missa
conga e missa sertaneja que conhecem melhor mobilidade.
No Brasil há quase uma tradição de movimentos messiânicos, geralmente
motivados e realizados pela vontade de - separando-se do mundo em que
viviam os adeptos - criar uma verdadeira comunidade cristã, um novo céu
e uma nova terra. Mas a expectativa do ano 2000 e até mesmo o dia de 11
de agosto de 1999, data marcada do fim do mundo, mostram uma outra imagem,
desta vez negativa, de sentimentos confusos que persistem entre o povo
aflito e provocam angústia e horror diante da destruição, próxima, do
mundo. Conhecido já em outras épocas históricas do Ocidente, este traço
apocalíptico de que o mundo vai acabar repercute na consciência coletiva
como medo, preocupação e insegurança angustiante, porque será como uma
explosão, em fogo, do universo todo. Como nos tempos de Jerônimo Bosch,
os diabos, quais verdadeiros monstrengos, pululam novamente na fantasia
popular.
Nas culturas ocidentais o medo da morte é bastante comum e humano. Mas o
que atrai a atenção entre o povo é o medo dos mortos e das almas. Os
mortos aparecem em sonhos. De noite, correntes de escravos são ouvidas.
As muitas superstições em torno de defuntos, caixões e cemitério,
participam da vida; rezar à meia noite caminhando no cemitério para
visitar todas as almas é objeto de promessa. Em casos de desastres com vítimas
fatais, logo são colocadas cruzes para cada uma, a fim de que elas não
incomodem os vivos, zanzando por lá.
Fantasmas não povoam apenas o mundo imaginário das crianças. Mau-olhado
faz evitar pessoas. Horóscopos, cartomantes, búzios e bolas de cristal são
matéria de propaganda e continuam entrando na prática de muitos. São
fenômenos que permanecem quase integrados na religiosidade popular.
Em seus discursos e panegíricos o cristianismo exalta a fraternidade.
Somos todos irmãos, expressão regularmente usada no culto. O que a
sociedade apresenta é uma contradição evidente, não só pelo volume de
violências, corrupções e injustiças, mas também pelas discriminações
que marcam a vida cotidiana. Em parte, os processos de emancipação que
envolvem os negros, as mulheres, os trabalhadores e os homossexuais e os
milhares de marginalizados e não-cidadãos estão mudando lentamente as
tradicionais relações da convivência social. As vítimas da discriminação
sentem a contradição na carne. Se tiverem alguma experiência da luta de
emancipação, não encontrarão satisfação e alegria na religião da
fraternidade e do amor, mas na religião como ópio do povo – segundo a
expressão de Marx -, ou como bálsamo celeste nas feridas.
1.3. Leitura reduzida
Numa das fórmulas mais antigas da fé cristã, o “Creio em Deus Pai”,
Jesus é apresentado como Filho de Deus, nascido da Virgem Maria; padeceu
sob Pôncio Pilatos; foi crucificado, morto e sepultado. A existência
humana terrestre se desenvolve entre o nascimento e a morte, enchendo o
espaço e o tempo entre os dois pólos com um mundo de acontecimentos,
alegrias e tristezas que costumam acompanhar a passagem neste mundo. Do
homem Jesus não é mencionado nada, entre o início e o fim de sua vida
terrestre, senão sua entrada e sua saída no fluxo da humanidade. Mas não
se ficou só nisso.
Enquanto a devota e tradicional literatura da Semana Santa descreve em
pormenores o sangue e suor da agonia, a flagelação, a coroa de espinhos
e a crucificação para impressionar os pecadores ouvintes, a sobriedade
dos evangelistas deixa claro que Jesus não se identificou com seus
sofrimentos e não se fechou em sua Paixão. Venceu a agonia, a solidão e
o pressentimento dos sofrimentos; com calma, deu um recado a Pedro para
que não usasse de violência e enfrentou o beijo do traidor e a prisão.
Firmes e diretas são suas respostas aos chefes religiosos. Pilatos tem
que ouvir que o poder que recebeu não é para abuso e injustiça. Levando
a cruz, ainda mostra sua compaixão para com mulheres que estão chorando.
Crucificado, não dá ouvido à raiva agressiva de um companheiro
condenado à mesma sorte, mas promete ao outro o contraste extremado do
paraíso; cuida de sua mãe; enxerga seus inimigos e algozes e para eles
pede perdão ao Pai. Mesmo se a imaginação dos discípulos tivesse
entrado na formação dos textos, sua impressão básica a respeito da
postura de Jesus, em sua paixão e morte, é a de que ele não se deixou
absorver pela dor nem se enclausurou dentro de si, mas permaneceu atento
aos apelos que provinham de seu derredor e aos acontecimentos que ali
ocorriam. O discurso clerical neojansenista concentrou a atenção do povo
na paixão e morte de Jesus, uma história de um dia na vida de um homem
que viveu uns trinta e três anos e marcou a história de muitas pessoas.
Ao redor do crucificado, os pecados, os demônios e os horrores do inferno
circulam em textos e gravuras, a fim de criar medo do severíssimo juiz
– Deus -, condicionar arrependimento e, como o catecismo repetiu, criar
o ambiente para dizer os pecados ao padre. De modo mais escondido, o povo
projetava sua própria vida, sofrida, para dentro da devoção a Jesus
crucificado e a Nossa Senhora com suas sete espadas no coração. Em
visita a doentes, quantas vezes acontece que os visitantes começam a
falar de suas doenças e operações cirúrgicas ou a lembrar tragédias
piores e morte sofrida por outras pessoas! A frase do Velho Negro,
sofrendo, na maior pobreza, de fogo selvagem em seu último estágio e
apenas coberto com uns sacos sujos de linhagem, é típica: “a gente
sofre muito, Jesus sofreu mais; Jesus não tinha pecado, a gente tem”.
No contexto do sofrimento e da vontade de confessar, estava a idéia do
castigo de Deus, também este um tema tradicional.
1.4. Instrumentos de defesa do povo
A focalização do Jesus sofrido, crucificado, morto, interligado à vida
sofrida do povo pecador, encontrava na tradição um certo equilíbrio
pelo mundo de milagres, ex-votos, santinhos, santos de devoção,
promessas e romarias. O medo atávico do aparecimento de Deus, que o povo
judaico já manifestou ao pé do monte Sinai e está guardado no mito do
pecado de Adão e Eva, fazia parte da fé e do imaginário comum a
respeito da onipotência divina sobre vida e morte, tentação e castigo.
Neste contexto, a mediação dos santos era bem-vinda, porque, uma vez,
eram de condição humana comum, e agora ocupavam um lugar privilegiado
diante do trono de Deus. Na confiança devota uma grande variedade de
santos trabalha em favor do povo sofrido, obtendo curas, emprego,
dinheiro, passar na prova, ser feliz no casamento ou no parto, chuva e boa
colheita e proteção contra todos os males de que o povo tem viva experiência.
Várias vezes, emitiu-se a opinião de que o povo pobre e sofrido é de
riso fácil. Não se limita a seu sofrimento, porque mais sofreu Jesus em
sua paixão e morte. Para tanta gente necessitada, outras páginas dos
evangelhos ensinaram a palavra mágica - milagre -, completada e variada
por muitos milagres de santos de todos os tipos e serviços, aliviando o
fardo pesado da vida. Severidade há na celebração da festa na igreja; a
procissão já é mais livre; as barraquinhas são para os devotos se
sentirem leves como prosa mansa e rir à vontade. A propaganda de Santo
Antônio é: se procuras milagres, o santo pode resolver qualquer problema
- como as cartomantes costumam anunciar. Os santos são flexíveis; até são
postos de castigo, se não fazem o milagre pedido pela insistência de
rezas e novenas. Cura feita, necessidade satisfeita, o santo fez o milagre
e é agradecido, mesmo se a mediação direta de amigos, médicos e outros
é mais do que evidente. Com seus milagres, os santos são o refúgio dos
pobres pecadores.
Um outro mecanismo de defesa contra a severidade e o rigorismo do clero
era formado pelos contadores de piadas que faziam rir o povo. Contra a
linguagem clerical ameaçadora de pecados mortais e infernos de perdição
muitos “truques” foram inventados para os pobres entrarem no céu,
apesar de tanto medo por causa das descrições tão angustiantes da morte
e do juízo último e definitivo de Deus, último e definitivo, tão
severo e implacável. Para seu alívio, o povo simples podia contar com o
forte crédito da misericórdia divina e a excelente defesa de São Miguel
e São José. Outro jeito era desmantelar o poder dominante do clero. São
as pequenas vinganças da vida. Enquanto turmas de pobres entram no céu,
sem dar nome e mostrar carteira, um prelado causa alvoroço e é recebido
com todas as honrarias, porque é raridade. Padre e religiosa, com jipe
quebrado no sertão, proporcionam aos ouvintes a mesma hilaridade que estórias
de chefes e secretárias causam em forma secularizada; e o fim é
exatamente o contrário do que o povo espera.
2. O bom humor de Jesus
Em seus freqüentes contatos com o povo, Jesus se mostra mui simpático.
Como disse um caboclo simples: ele era um “sujeito bacana”. Com um
pouco de imaginação, ele surge nos Evangelhos como um homem simpático,
comunicativo, aberto e atraente.
2.1. Uma personalidade atraente
Na arte cristã ocidental, exceção feita às cenas do “Eis o homem”
e da morte na cruz, o rosto de Jesus é apresentado sério, sereno e
solene, com os lábios fechados. Mesmo assim, como a criança, o menino, o
rapaz, Jesus expressou toda a gama de sentimentos e emoções que se pode
esperar de um filho de José, o carpinteiro, e de Maria, que todo mundo
conhece em Nazaré. Chorar, rir, achar graça, brincar, estar contente com
os amigos, correr na frente dos romeiros mais velhos...: nada de humano,
comum, lhe é estranho. Quando começou sua missão pública, Jesus
expressava no tom de sua fala, no seu olhar, nos traços de seu rosto
todas as qualidades de coração, conforme as cenas e situações em que
se envolveu: compaixão, bravura, contentamento, lágrimas, entusiasmo,
sorriso manso, gosto e prontidão em ajudar, prosa agradável, gestos simpáticos.
O Evangelho guardou palavras duras dele, mas falta o tom para ouvir a
dureza para com os fariseus e a benignidade com que um sábio sacode,
manso, a cabeça diante da dificuldade de um povo sofrido que confia num
benfeitor. Não era de “cara fechada”. Jesus sabia ser alegre, dar
alegria ao povo preso na gaiola de suas doenças e pecados e fazer tantos
marginalizados e excluídos levantarem de novo a cabeça.
O triste futuro da cidade, do templo, da beleza e de tantas recordações
levou Jesus a chorar. Mas quando a mulher adúltera ouviu a palavra: “eu
também não te condeno; vai em paz”, e levantou, finalmente, a cabeça,
viu apenas o rosto do homem e sua ternura sorridente. A alegria da mulher
de má fama que ouviu Jesus afirmar: “muito lhe foi perdoado porque
muito amou”, não combina com um rosto fechado, mas sim, com um sorriso
benigno da parte de quem falou. A multiplicação dos pães, a cura do
aleijado ou do cego de nascença se realizaram em clima de festa e de
alegria, das quais o próprio Jesus participou. Até hoje, para o povo
simples, Jesus não é uma estátua de mármore frio, que decreta ordens
de mandão. As dezenas de estórias sobre Jesus e Pedro, das pedras que
viraram pão, do frango assado de uma perna só, do fazendeiro que os
deixou apenas no estábulo, e tantas outras, só fazem supor um Jesus
sorrindo, até com um leve toque de malícia, quando, mais uma vez, Pedro
sai perdendo.
2.2. Fisionomias de Jesus
A fim de retocar e temperar a imagem jansenisticamente austera de Jesus de
Nazaré, a imaginação há de se transferir para os contextos
interpessoais em que, segundo os evangelhos, ele atuou como origem e autor
de novidade. Quando Jesus viu a alegria do povo com a farta distribuição
de pão e peixe num piquenique improvisado, será que seus olhos ficaram
duros e seus lábios fechados sem sorriso? Expressões faciais não são
condicionadas apenas pela pessoa, seu caráter e atitudes fundamentais na
vida, mas também pela seqüência de situações humanas que enfrenta.
Expulsar os comerciantes do templo ou cutucar os fariseus com vara curta
exige outros traços do que o declarar “sou manso e humilde de coração”,
portar-se conseqüentemente e atrair tanta gente sofrida e aflita, como
Jesus fez. Sua compaixão e ternura para com as ovelhas sem pastor supõem
um coração e uma face aberta para acolher as pessoas necessitadas e
marginalizadas e atender atenta e amavelmente ao que elas pedem e precisam
para levantarem suas cabeças e enfrentarem a vida. Os evangelhos relatam
apenas palavras e gestos e não falam das expressões do rosto humano de
Jesus.
A tranqüila alegria com que Jesus levantou a menina do “talita cumi”
pela mão foi completada pelo sorriso bem-humorado com que chamou o pai,
entusiasmado, de volta à realidade: dá de comer à menina; ela está com
fome! Com a calma consciência de sua autoridade, ele enfrenta os
poderosos da religião judaica e do Império Romano, mas seu rosto assume
ternura e sorriso aberto de amigo, quando vê Zaqueu entre as folhas de
uma árvore e se convida a si mesmo para o almoço com ele. Será que
somente com traços sérios e assunto pesado ficava sentado à mesa de
pecadores e publicanos? Que uma gota de mel faz mais do que um barril de
vinagre, é provérbio popular até hoje.
Quando os caros discípulos, filhos de Adão e Eva, discutem e cada um
quer ser primeiro-ministro no governo do novo rei, Jesus apresenta uma
criança que não entende nada do que estes homens grandes estão falando.
É um gesto humorístico que desmascara a discussão e com um sorriso irônico
leva seu público a pensar. Com a mesma ironia leve, ele assume a crítica
dos fariseus que rejeitam João porque era um asceta austero e rejeitam
Jesus, porque come e bebe demais. Em sua linguagem hiperbólica da trave
que está no próprio olho ou no conselho de cortar a própria mão, o próprio
pé em caso de escândalo uma boa atitude de humor, esconde-se uma atitude
que torna leve o que é missão difícil: reconhecer seus próprios
defeitos e poupar aos outros o escândalo verdadeiro. O que é leve há de
ficar leve pelo sorriso. O homem não foi feito para o sábado com seu
peso de restrições e proibições precisas; o sábado é para o bem e a
libertação do homem, colocando-o à vontade e descansando.
Jesus podia declarar que seu fardo é leve e seu jugo suave, pois sua
mensagem é a misericórdia e a bondade do pai e a libertação para um
povo sofrido e cercado de tantas normas e exigências. No problema de
pagar imposto, seu humor cria uma brincadeira: mandou Pedro pescar e o
pescador encontrou, feliz, na boca do peixe o dinheiro para pagar. O mesmo
Pedro queria mostrar que entendia a mensagem de seu Mestre e achava que
perdoar sete vezes basta. Com suas parábolas e sua maneira pronta de
perdoar, Jesus claramente o ultrapassou, e muito, pois Deus perdoa mais do
que setenta vezes sete, sempre. Olhando de fora a cena da mulher adúltera,
é um gozo ver como Jesus limpa a praça. Ninguém tem nada com o pecado
do outro, senão para perdoá-lo. Depois, com que bondade benigna deve ter
olhado para a pobre mulher, quando a perdoou e lhe aconselhou: não faça
mais isso - o que, certamente, a mulher já tinha escrito com letras de
fogo em seu coração! Defendeu a mulher pecadora, dando uma lição de
boas maneiras a seu hospedeiro, e deixou sua crítica severa e correta,
para dar intensa alegria à mulher desprezada: muito lhe é perdoado,
porque muito ama! A dureza para com o fariseu mudou-se na grata e
estimuladora bondade com que olhou para a mulher. Porque a misericórdia
de Deus é superabundante e sua criatividade tira qualquer preocupação,
o agricultor pode dormir em paz: semeou a terra, o sol e a chuva fazem o
resto, garantindo-lhe uma boa colheita.
A marca registrada do rigorismo jansenista, negativa e que penetrou no
catolicismo popular, não combina com o espírito do Evangelho. Sua
austera capacidade de conjugar os verbos proibir, condenar, censurar
severamente, expulsar e mandar para o inferno, camuflou muito, durante
longo tempo, o horizonte de esperança e de liberdade que Jesus abrira
para os pobres e pequenos. Medo e angústia espalharam por todo espaço
humano a cizânia de pecados mortais e as ciladas do diabo que Jesus já
viu cair, vencido, do céu. Ao contrário, a identidade moral de Jesus se
compõe de bondade, amor, compaixão pelos inimigos que o crucificaram,
amizade, paz, animação, procura das ovelhas perdidas, partilha em vez de
acumular bens, dedicação e sacrifício pelo bem dos outros. Sua
generosidade é tal, que o mesmo grupo de discípulos que o traíra recebe
línguas de fogo na vinda do Espírito Santo, sem cerimônias
penitenciais!
Na parábola do pai misericordioso, o discurso do filho é totalmente
abafado no abraço do pai que o soergue e lhe promove uma festa com a família
toda. A moral de Jesus não conhece o ressentimento vingativo do outro
filho, demasiadamente humano. Para os peregrinos deste mundo a leitura do
Evangelho através dos óculos de um manual clássico de Teologia Moral os
faz correr o risco de se perderem na monotonia de pecados que acompanha a
normatividade detalhista. Assim, o espaço da misericórdia libertadora de
Deus, sempre pronto a perdoar e a renovar suas criaturas, se esvazia, como
se fosse um eclipse total do sol da justiça. Nesta triste escuridão também
a sabedoria de Jesus se perde, pois confirma que o pecado provém do coração
do homem. Normas não pecam. Conforme os critérios simples do juízo
final, são os filhos pródigos que se perdem, mas o Pai continua de braços
abertos, pronto para matar um bezerro gordo e fazer uma festa alegre e
descontraída, sem fofocas, porque Deus é festa em sua criatividade e
amor.
O realismo prático do povo descobriu que, se a montanha não vai a Maomé,
Maomé vai à montanha e sobe. Com três gotas de humorismo Jesus disse
que a fé desloca montanhas e as joga no mar. O horizonte de vida que
Jesus descortinou aos seus discípulos, com as parábolas sobre o reino de
Deus, é tão amplo que as proporções do ser humano se tornam tão
pequenas, a ponto de ele se sentir apenas um servo inútil diante do
Senhor sem o qual nada pode fazer. Tantas vezes escondida num cantinho do
manual de moral, a humildade realista produz a admiração que se encanta
e não entende por que é que Deus se ocupa de suas criaturas humanas com
tanto cuidado e carinho.
Para o judeu Jesus, normas morais são fórmulas mortas, e códigos são
apenas letras escritas em rolo de pergaminho, se não se tornam apelos
vivos reais, feitos por pessoas concretas e suas situações reais. Ele
veio não para as pessoas de boa saúde ou de conduta correta, e sim, para
doentes, fracos, pecadores, necessitados. Não deixou receitas, mapas ou
planos de vida, mas procurou ler nos olhos dos outros tudo de que
precisavam para entrar no reino de Deus. Importância e poder talvez
exaltem a submissão às normas e desprezem os outros que não as
observam. O sacerdote e o levita passam adiante. A Jesus está atribuída
esta afirmação: a mim foi dado todo o poder no céu e na terra. Mas uma
cananéia, mulher de fibra, que engoliu secamente e neutralizou com fineza
o desprezo dos judeus pelo seu povo, levou Jesus a mudar sua decisão e
curar-lhe a filha. Sobre uma cena destas paira o espírito do bom humor
que gera alegria.
Pedro pescou a noite inteira. Não apanhou nada. Desanimado, com a barca
vazia, voltou. Encontrou na praia o homem que, calmo, e com brilho nos
olhos, lhe diz: lança a rede para o outro lado. A barca se encheu demais.
Foi necessário chamar os companheiros. Veio o convite de se tornar
pescador de homens. Na época da eletrônica, talvez as naves das igrejas
se encham e companheiros de fora sejam chamados para ajudar. Mas experiência
de pescador se ganha, não selecionando peixes na praia do descanso e,
sim, no mar, de anzol ou de rede. E o bom pastor deixa o aprisco ao
guarda-noturno e vai para fora. Que a brincadeira com tantos símbolos não
entorne o caldo do humor!
2.3. A sublimação do sofrimento
Apesar da estabilidade doutrinária cristã, a vivência religiosa é
sempre condicionada pelo espírito da época e pelo espaço cultural. No
Brasil, a tradição herdada do rigorismo e da negatividade neojansenista
focalizou muito o Jesus crucificado, num contexto de pecados, demônios e
castigos do inferno. Pela leitura seletiva dos evangelhos, o culto
religioso criou ampla oportunidade para o povo projetar sua vida sofrida e
oprimida pelo medo nos sofrimentos de Jesus e Maria. Assim, encontrava
coragem para suportar sua cruz e agüentar a dureza de uma vida de tanto
sofrimento e injustiça. Porém, na sombra desta aceitação resignada
ficou a passividade, que não percebeu a missão de criar uma sociedade
mais justa e fraterna. Com isso, boa parte da ação de Jesus sumiu atrás
da esfera antimundo, de desprezo por este vale de lágrimas, deixando
marginalizada a responsabilidade sociopolítica dos cristãos.
3. O novo e o velho
O Evangelho usa a figura do sábio que tira de seu baú coisas novas e
coisas velhas. A articulação destes dois tempos não é, porém, tão
simples como parece.
3.1. “O tempora, o mores”
Nos últimos cinqüenta anos o campo do sagrado mudou de fisionomia e de
tom. Novas religiões e seitas cristãs reduziram consideravelmente o
tradicional domínio do catolicismo, usando todos os meios modernos de
comunicação. Também as práticas religiosas do catolicismo se
transformaram em muitos lugares tão intensamente, que os sinais externos
mudaram de - para +. A tristeza virou alegria, meu irmão; o pessimismo
virou entusiasmo; a penitência virou amor de Deus; o peso da cruz e do
castigo virou a leveza corporal em movimento; a severidade proibitiva da
lei virou a comunicação direta com o guia Jesus ou Espírito Santo; os
horrores do inferno viraram espiritualidade da misericórdia que tudo
suporta; a angústia do pecador apavorado virou louvor cantado a mil vozes
a Deus que é 10, perdoa e cura tudo em todos; a insegurança da vida
virou “tudo é previsto”; uma religião de remorsos e resignação
virou uma religião de exaltação e júbilo; a corporeidade escondida e
suspeita virou liberdade ágil de gestos e danças. O domínio do clero
autoritário viu crescer uma liderança leiga paralela e quase incontrolável.
Na pista da religiosidade cristã, qualquer observador registra muitas
novidades.
Depois do Concílio Vaticano II, vários movimentos de renovação parecem
ter tomado outros rumos, trocando o medo do pecado e do castigo e a ligação
entre a paixão de Jesus e a própria vida sofrida pela alegria, pelo
louvor a Deus, pela movimentação corporal do culto “happening”. No
entanto, renovações mais profundas ou radicais não acontecem
facilmente. Resistências e tradições mantêm força de freio,
retardando a penetração de novas idéias e formas de vida. Muito
processo de reforma leva consigo “trem velho”, esquecido no sótão,
num baú dos avós. Muitas tradições continuaram ou ressurgiram: as devoções
aos santos, ao Santíssimo Sacramento, ao rosário, até em formas novas,
como consagração aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, bênçãos,
medalhas. Os anjos e os demônios voltaram, como voltaram as listas de
pecados e os papéis com os pecados escritos para não esquecer nenhum.
Entretanto, a pergunta que se faz é a seguinte: se, sob a nova exuberância
de palavras, cantorias, gestos e movimentos religiosos, também as águas
do subsolo, fontes da vida cristã histórica, mudaram de qualidade e
expressam melhor o Evangelho do Senhor Jesus. Vinte séculos de vida cristã
no Oriente e no Ocidente mostram uma rica variação das maneiras de viver
o Evangelho e de levedar, com este fermento, a vida cotidiana na
diversidade de pessoas, épocas e culturas, com maior ou menor
intensidade. A pertença ao povo de Deus e à ortodoxia doutrinária não
impede que pessoas e comunidades tenham expresso no passado e expressem no
presente estilos e qualidades próprios, característicos nas formas de
“traduzir” a Boa-Nova nas práticas de cada dia. Novidades e
iniciativas sempre há. Até que ponto suas raízes penetram na terra
prometida?
Outrora, um dos últimos herdeiros da cristandade e do rigorismo moral
neojansenista, o catolicismo brasileiro, cultivava distância, medo e
desprezo pelo mundo, simbolizados pelo famoso quadro de Francisco de Assis
que, em estilo alcantarino, abraçava o Cristo crucificado e pisava no
pequeno globo terrestre. Fugindo do mundo mau, conjunto de perigos, tentações,
males e pecados, o povo cristão se refugiava nas igrejas tradicionais
para ascender, seguindo o sacerdote, a escada de Jacó com seus santos,
velas e flores, rumo à glória da Santíssima Trindade.
Na complexa evolução da sociedade atual vários fatores dinâmicos
entram em jogo. No Concílio Vaticano II, o princípio da autonomia das
realidades terrestres amadureceu e foi formulado. Os adjetivos que foram
acrescentados não tiram a força do substantivo central. Esta confirmação
é acompanhada pela crescente conscientização de que, também no Brasil,
a Igreja católica conta apenas com um reduzido número de praticantes
ativos, de modo que sua influência e irradiação no mundo da política,
da economia real, da vida social e dos meios de comunicação não é
exatamente decisiva. A progressiva secularização das diversas linguagens
das atividades humanas coloca a religião - qualquer religião - à
margem, pois é a-religiosa ou pós-religiosa e faz seu próprio jogo,
responsável ou não.
Neste cenário, a renovação da religião popular - quase uma reviravolta
- corre o risco de participar de uma experiência de São Pedro.
Generosamente ele queria sair da barca segura, mas lá fora a ventania era
forte e altas as ondas. Querendo ou não, os fiéis vivem no mundo, que
tem sua política econômica real, seu mercado de trabalho, sua violência
e tantas coisas mais. Não é paraíso, mas sim, luta, sedução,
enfrentamento de males e injustiças, insegurança do futuro. Esta situação
provoca a tentação de se retirar em cultos animados, que fazem esquecer
o mundo real a enfrentar, usando a festa íntima com Deus como touca para
proteger a cabeça. O mundo continua rodando, misturando o bem e o mal; a
religião representa algo como um spa para descansar e ficar à vontade. A
missão dos discípulos do Senhor, porém, é participar do mundo humano e
demasiadamente humano com seus conflitos e contrastes e ser luz, sal e
fermento de solidariedade fraterna, termo-bandeira cuja realização
depende também, em primeiro lugar, do cristão, conforme o Evangelho e a
“Gaudium et Spes”.
3.2. Mundo e mediações
Aqui entra ainda outro risco: o da mediação humana na reorganização do
mundo atual. O exemplo extremo foi fornecido por uma senhora, devotíssima
de Santa Teresinha. Tinha uma prova difícil pela frente. Fez uma novena
à sua santinha. Não teve tempo para estudar: doença do filho, muitos
afazeres... Rodou. Estava com raiva, porque Santa Terezinha a deixou na mão,
fracassou. Na religiosidade de muito cristão, este esperar tudo dos
santos ou de Deus, sem nenhum esforço próprio ou auxílio reconhecido de
outros terrestres, não sumiu; continua no sentido da vida. A direta,
atual e freqüente comunicação com Jesus ou com o Espírito Santo parece
ter algo de uma continuação antibíblica, pois, desde o início, Adão e
Eva foram colocados no jardim, para cultivá-lo, administrá-lo e se
responsabilizarem por ele. Esta responsabilidade das pessoas humanas que
usam seus talentos e colaboram com os outros para juntos criarem uma
sociedade melhor e mais humana, “como se Deus não existisse”, é
fundamental para o cristão. O que ele presta de serviço a seus irmãos
é o critério de sua identificação com o Senhor Jesus e o começo da
vida.
Ao menos no espaço vital do Catolicismo, um jogo de imagens parece estar
se processando entre um Deus severo e exigente e um Deus bondade e misericórdia,
entre o calvário e o Tabor, entre o clero dominante e seus ministros
dependentes e o laicato emancipado na vida política, econômica, social e
familiar, entre a “monarquia” religiosa e a democracia participada,
entre a separação entre culto e vida profana e entre a integração dos
cristãos na Igreja e no dia-a-dia do mundo. Nesta unidade de pertença e
pluriformidade histórica de opções e estilos de vida, a
responsabilidade dos cristãos maduros exige mais do que discernimento e
senso autocrítico. Os peregrinos precisam crescer na procura do
verdadeiro Deus, ainda velado, e intensificar sua colaboração na extensão
e no aprofundamento do seu Reino no espaço total de sua criação.
Endereço do Autor:
Caixa Postal 16
35500-010 Divinópolis, MG/BRASIL
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